O Semioceno da Ecossemiótica

Por Lucia Santaella

Abstract: Variations on the name of the Anthropocene are proliferating. This is understandable not only because concerns about the problem have become omnipresent, but also because each way of naming it indicates the point of view that is being discussed. An example of this is the Capitalocene, whose critique is inscribed in its name. In the case of Ecosemiotics, a science whose relevance has become apparent today, the name that derives from it is Semiocene.
 

Em março de 2924, com bastante repercussão internacional, o conceito de Antropoceno (do grego anthropos, que significa humano, e kainos, que significa novo) foi rejeitado pela Comissão Internacional de Estratigrafia, da União Internacional de Ciências Geológicas, como uma nova época geológica, que sucederia ao Holoceno.
No entanto, mesmo geólogos e, principalmente, cientistas de outras áreas concordam que a ação humana posterior à Revolução Industrial provocou mudanças na Terra que serão evidentes mesmo num futuro distante.
Como alguém que estuda perdas de espécies e as interações entre elas, o pesquisador Mauro Galetti não poderia pensar diferente, o que fica atestado por suas palavras

O Antropoceno existe, ele é real, é só olhar o que está acontecendo no planeta. A grande maioria dos cientistas entende que a nossa influência, principalmente as mudanças climáticas e as mudanças na biodiversidade, está transformando a Terra. Estamos causando a extinção de várias espécies, entrando numa sexta extinção em massa. Isso é irreversível. Estamos mudando o clima. Várias espécies mudaram sua evolução por causa dos seres humanos. (Galetti, 2024)

O Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima reúne pesquisadores e estudantes que, trabalhando nesses tópicos, perceberam ser necessário juntar esforços em um centro único com recursos, no caso, da FAPESP, para avançar em questões que individualmente não podemos responder. Unidos, podemos dar um salto no conhecimento científico e buscar soluções ambientais para o Brasil (ibid.).
Em junho de 2024, organizado pelo Grupo de Pesquisa Transobjeto, sob a liderança de Lucia Santaella, do programa de pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, da PUS-SP, e apoiado pela Fapesp, foi realizado o Colóquio Internacional de Ecossemiótica.
Voltado para a leitura semiótica das questões ecológicas, hoje sob pressão da crise climática, esse campo de pesquisa foi fundado por Winfried Nöth, há 30 anos, em 1995. A partir daí, os estudos foram se desenvolvendo no mundo, contando hoje com disciplinas e grupo específico de pesquisa na Universidade de Tartu (Estônia).
O evento teve por objetivo discutir a relevância da ecossemiótica para os estudos do Antropoceno, mas dele resultou uma ideia complementar que passará a ser tema de discussão do grupo de estudo daqui para a frente. A ideia tem o título de Semioceno.

 

Os mil nomes do Antropoceno

Assim como Gaia (Danowski e Viveiros de Castro, 2023), o Antropoceno tem mil nomes. Vale a pena mencionar alguns deles, que não cessam de proliferar, para se ter uma ideia da onipresença prismática da questão na contemporaneidade: Androceno, Angloceno, Capitaloceno, Chthuloceno, Ecoceno, Necroceno, Negroceno, Piroceno, Plantropoceno, Plantationceno. E tem mais: Agnatoceno, Bioceno, Ginoceno, Homogenoceno, Negantropoceno, Termoceno, Tanatoceno, Fagoceno, Phronoceno, Polemoceno (Clarke, 2020, p. 244). E mais: Misantropoceno, Antrobsceno, Tecnoceno, Socioceno (Angus, 2023, p. 258).
Dominando sobre todos os nomes encontra-se o capitaloceno (Moore, org., 2022), razão primordial da depredação do planeta. Mas se, de fato, cada um dos prefixos acentua um dos aspectos desse fenômeno plurifacetado, quando o problema é estudado sob o ponto de vista da ecossemiótica, o nome que parece mais adequado é Semioceno.
Algumas palavras sobre a ecossemiótica serão capazes de evidenciar por que dela decorre naturalmente o Semioceno, os ataques contra a vida perscrutados pelo potencial que a semiótica oferece.
A ecosemiótica é o estudo das interrelações semióticas entre organismos e seu ambiente. Essa definição pressupõe que o centro de interesse de uma semiótica ecológica não é um homo semioticus, mas, mais geralmente, um organismus semioticus. Ainda mais fundamental é a questão sobre a relação entre o organismo e seu ambiente que é sempre de natureza semiótica. Deve haver sempre pelo menos um aspecto semiótico nessa relação. Caso contrário, teríamos que distinguir entre relações ambientais semióticas e não semióticas.
A ecosemiótica, portanto, é um estudo dos processos de signos que não se restringem a signos arbitrários ou convencionais e signos artificiais. Também, e talvez principalmente, estará preocupada com signos naturais mediando entre o organismo e seu ambiente.
Quando se trata da ecossemiótica, como o próprio nome diz, o ambiente deve ser concebido no limite estrito do orgânico — inclusive incorporando a taxonomia dos cinco ou sete reinos do vivo. Seu foco na vida, evidentemente, não significa a negligência com as questões sociais, uma vez que ambiente humano é sempre ambiente socializado (Noth e Santaella, 2024).
O semioceno na perspectiva da ecossemiótica é um projeto em progresso. Sob a edição coordenada por Adriano Messias, está sendo organizado para 2025 um número da Revista Teccogs que irá inaugurar publicamente o estado da arte da questão e do projeto. Aguardem.

 

Referências

ANGUS, Ian. Enfrentando o antropoceno, Glenda Vincenzi e Pedro Davoglio (trads.). São Paulo: Boitempo, 2023.

CLARKE, Brian. Gayan Systems: Lynn Margulis, neocybernetics, and the end of the Anthropocene. University of Minnesota Press, 2020.

 

DANOWSKI, Débora; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Os mil nomes de Gaia, vol. 2. São Paulo: Ed. Machado, 2023.

GALETTI, Mauro. Antropoceno. Agência FAPESP agencia1@fapesp.br, 07 junho 2024.

MOORE, Jason W. (org.). Antropoceno ou capitaloceno? Natureza, história e crise do capitalismo, Antonio Xerxenesky e Fernando Silva e Silva (trads). São Paulo: Ed. Elefante, 2022.

NÖTH, Winfried; SANTAELLA, Lucia. Atualidade da ecossemiótica para pensar a Amazônia. In: Lucia Santaella; Kalynka Cruz (orgs.). Amazônia Digital. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2024.

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